O dever e o prazer (Tania Zagury)

Nada mais difícil do que lidar hoje em dia, nessa sociedade hedonista e consumista, com o conflito entre DEVER e PRAZER. Todo bom pai ou mãe, coração repleto de um amor antes desconhecido, fica enlouquecido de vontade de fazer tudo que for possível para atender aos mínimos desejos que as crianças manifestam (haja coração e fôlego para vencer o bombardeio da mídia). Isso, sem dúvida, dá muito prazer. Se não podemos, por falta de recursos financeiros ou pessoais, ficamos tristes, desgostosos pelo que consideramos "nossa incapacidade".

Diante da realidade de um mundo em que as relações estão cada vez mais limitadas e as pessoas temem se envolver emocionalmente, os pais acabam dedicando aos filhos o melhor de sua afetividade. Por isso, a todo instante, vemos mais e mais pessoas tentando "fazer tudo" pelos filhos. Porque dá prazer, porque é gostoso mesmo. Existe coisa melhor do que ver os filhos felizes, pulando no nosso colo, dando "aquele" beijo e "aquele" sorriso, depois de mais um desejo atendido?

Existe sim, algo melhor. Só que não dá para ver agora, hoje, amanhã, nem em meses. É algo que só vai dar para enxergar muitos anos depois: é o que se sente ao olhar para o filho e ver nele, já adulto, um cidadão honrado, produtivo, uma pessoa de bem engajada num trabalho que lhe dá prazer e que contribui para a melhoria da sociedade. É olhar para o filho e ver que, apesar de tanta coisa ruim e ameaçadora na sociedade atual – consumismo, individualismo, desonestidade, drogas, promiscuidade, corrupção, irresponsabilidade -, ele não sucumbiu a nada disso. Ao contrário, parece ter passado ao largo. Não se deixou levar, não se tornou um predador. Não destroi e não se destroi. Não usa drogas, nem se marginalizou. Estuda, trabalha, busca o crescimento constante, produz, contribui.

Sem dúvida isso dá muito prazer, embora anteriormente possa ter sido muito difícil e percebido apenas como dever. Porque por trás desse ser humano maravilhoso que você enxerga, você também se enxerga. Você vê o produto do seu trabalho, do seu empenho, de tudo que você é e foi. Você se vê no que foi capaz de construir. E que, de certa forma, é a melhor contribuição social que alguém pode dar: deixar aqui na Terra um, dois ou três seres maravilhosos – criados por você – que criarão outros quatro, seis ou dez seres dignos, humanos - construtivos e construtores. E, desta forma, a humanidade terá, como produto de cada família, uma sociedade melhor, porque constituída de pessoas melhores.

Esse é o incomensurável prazer de sentir o DEVER cumprido. Que resulta, no final dos tempos, em PRAZER também, mas certamente num prazer mais valioso do que aquele, momentâneo, que consiste em apenas atender a desejos e em dar coisas materiais, perecíveis, consumíveis, e que se extinguem por si mesmas.

Essa é a forma ideal de superar o conflito entre DEVER e PRAZER, simplesmente porque acabam, ambos, integrando-se, tornando-se um.

Fonte: http://www.taniazagury.com.br/artigos.asp?cdc=3476