Socorro, agora tudo é bullying!

03/05/2011

Adriana Roese, diretora de escola, analisa a banalização do conceito de bullying nas escolas. Disponível no Jornal Zero Hora.

Desde que houve a tragédia em Realengo e sua divulgação na mídia, a toda hora chegam à escola pais de alunos reclamando de que seus filhos estão sendo vítimas de bullying. O que muitos não percebem é que não foi o fato do matador Wellington ter sofrido bullying na escola que causou a tragédia. Não foi um simples apelido pejorativo ou a falta de entrosamento com grupos o que provocou tudo.

Muito antes de esse rapaz entrar na escola, ele já havia sido excluído de sua família de origem, foi abandonado pelos seus pais, depois foi adotado por outra família e, pelo que tudo indica, aceito pela mãe adotiva e não pelo restante da família, a julgar por seu enterro em vala comum 15 dias após o corpo aguardar reconhecimento. Esse rapaz, portanto, antes de ser excluído da escola, já o foi na vida.

É importante também refletirmos que o ato de matar ou agir com violência não pode ser justificado somente por situações vexatórias vividas no ambiente escolar. É preciso mais do que isto. É preciso que o cidadão em questão apresente um desvio de conduta, de comportamento e, provavelmente, um transtorno psíquico.

Hoje, ao falarmos constantemente no bullying como “o mal do século nas escolas”, estamos repassando, mais uma vez, para as escolas a responsabilidade de resolver a “doença da sociedade”. As crianças escutam constantemente seus pais chamarem a vizinha de gorda, o tio de veado, o filho do dono do mercado de anãozinho, aquele tio deficiente físico de perneta, o melhor jogador do mundo de pato, o Ronaldo Fenômeno de gordo, mas vejam só, é na escola que há o problema!

Costumo dizer aos pais que embora o bullying tenha reflexos na escola ou se reproduza nela, não é no ambiente escolar que as crianças aprendem a discriminar, não com os professores.

Quem não lembra dos apelidos que tinha na idade escolar, “seco”, “gigante”, “dentinho”, “sagui”, “gordo”, “toco”, “pica-pau”, “queixo”, acrescente a sua lista.

Não estou aqui defendendo os apelidos pejorativos e suas consequências emocionais em cada pessoa, mas é preciso ter prudência e bom senso, nem tudo é bullying, nem tudo é perseguição e ninguém pode invadir escolas, bater em pessoas e muito menos matar com a desculpa de ter sido vítima de bullying. Quem age dessa forma só está colocando para fora a doença crônica de uma sociedade violenta que procura responsáveis na escola.